domingo, 28 de setembro de 2008

São saltos no escuro


Pulos de alegria, esses, pu-los de parte, porque nulos se tornaram sem que por isso me dessem melhor porte.

sábado, 27 de setembro de 2008

companhias... limitadas


A um toque, a uma conversa, a um salpicar de bajulância e incredulidade. São inúteis as previsões, destituídas de seu sentido as manigâncias de velhas de parapeito. Deixemo-las nos bancos de autocarro, que o dia faz-se tarde e a noite traz uma promessa entalada nos dentes...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Terrível e cruel...

... o pensamento deixado à deriva, solto entre os olhares de uma superfície lisa e uma vontade desmistificante de prescrutar os recantos de um caderno sem linha alguma.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Loucura pura e dura


Quando à frente do nariz vemos algo que não devia estar lá, será vontade de arrumo ou miragem? Quando sentimos nos pés passos que terão ainda de ser comprovados, mas que se assumem na sua colocação, será tremenda ansiedade ou reconhecimento de bailante deslocação? Quando se ouvem vozes que não foram sopradas, será vento de tempestade ou memórias que se ressentem em apagar? Quando adormecemos ao frio, será cansaço ou por ventura romantismo? Quando tememos aquilo que os sentidos nos podem obrigar a ver, será dor antecipada ou afecto retraído? Quando deixamos de querer ver aquilo que a janela nos traz, seremos então melhores candidatos à cegueira ou aprendizes de merceneiro...

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Somos santos, todos nós


e todos nós iremos parar ao céu pelas coisas que, de tanto querer feitas, nunca no impedimos de largar. Beatamente inacabadas.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Tempos perdidos


-Não, não te enganaste. Não estou mesmo cá.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Dúvidas assimétricas


Assassinas do sono. Não lhes basta toldar-me a vista e convencer-me o pensamento a discorrer numa distenção desenfreada, como ainda por cima me arrancam os cabelos um a um e tingem os olhos de um sangue que deixam então para o dia pisar?? São terríveis amigos, as colheres de chá de café e as palavras repartidas em couvettes delineadas a contonos de tinta da china, detentoras da chave de fusos horários e carpideiras votivas de um templo que há muito se devia ter esgotado. Noite terrível que me encantas, chama os teus lacaios para teu torno, faz subir esses bobos que me prendem o pensamento no som dos seus guizos e a atenção que deveria dar aos sonhos, essa, devoram-na sem tréguas nem sinais de refastelamento. Fa-los sumir-se, amiga de meu nome, fa-los ir-se nesse dossel prateado. Apela-lhes ao sentido que as retorne pelos uivos seus familiares desse vento com que ergues as saias arbóreas. Apela-te mais uma vez, este meu juízo que se demora em retornar.

domingo, 21 de setembro de 2008

Ocupas


Escondido, dentro de um armário escuro, perdido numa sala antiga onde as conversas são apanhadas nas teias e se colam ao pó enevoando as paredes. Algures, temendo cada gemido do soalho, cada estalar da madeira dos estrados dos louceiros. Sustendo a respiração para que as gavetas não traiam, marcando na memória a colocação precisa de cada peça de vasario precioso para que não quebre como roçar do medo. Sustido entredentes na vertigem de que a qualquer momento, a qualquer segundo, um par de brilhos o encontre ao fundo da prateleira. São temíveis os jogos de caça, quase tanto como os de cama que se esticam lá fora, escondendo parapeitos e semi-ocultando ombreiras perfuradas, rendidas ao calor. Elevando o corpo para que não pese no estrado, enrolando os punhos para que se não rasgue o papel de forro, fino que nem seda. Perdem-se as horas como as riscas do papel com o tempo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

espaço velho... vida de jovem.





Ideias recentes em salas bafientas. Num estirador que não me pertence, usurpando folhas de papel uma atrás de outras, de baixo de máquinas que zumbem por outros projectos, sobre ideias que não conhecerão probabilidade de ser editadas. São novas as carecas que passam na rua, num percurso já seu conhecido, agora meu também. Tornemo-lo então nosso, para que não seja só meu. Que molde o percurso de mais alguém.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Estufa de Sonhos


Escondem-se como crianças por detrás dos móveis duma casa antiga...

Estufa de Sonhos II


e mesmo quando procuro por essas respostas escondidas...

Estufa de Sonhos III


parecem apenas somar-se às milhentas contradições que se acumulam na minha memória.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

A maquina de vôo


-Nem vais acreditar na última engenhoca que engendraram...
-Ó m'lher deixa-me 'tar!
-Mas, ouve! Diz a Felizmina que voa e tudo...
-La 'ta a 'Mina noutra das dela.
-Escuta, parece que é feito de um material novíssimo, muito leve, que pesa ainda menos que uma camisa de seda...
-Vá lá ela saber o que isso é, a 'Mina.
-Ouve, e diz que consegue chegar a estratosfera mais depressa que um foghete, desses da marinha!
-E sabes a que distância está a estratosfera, tu?
-Saber, não sei, mas lá que deve ser mais alto que a Torre da Cidade, é com certeza!
-Deixa-te de disparates, ainda te ouvem.
-Olha, e parece que anda ainda mais depressa que um subrasónito, esses, da força aérea...
-E sabes lá tu a que velocidade andam os da força aérea! Ó m'lher deixa-te disso.
-Escuta, Tininho, a 'Mina é de confiança, e se ela diz que sabe do que fala, eu acredito!
-Ó m'lher deixa-me 'tar, de uma vez. Para o que lhe havia de dar, agora...

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

saltos surdos


Num campo de sonhos... de outros. D'esse outro que nos deixara, anos antes, pequenas memórias para que agora as pudessemos recolher. Nem seriam as melhores nem as mais interessantes, mas apenas aquelas que, na altura, estavam disponíveis para ser explicadas. Corre-se sobre cálculos soltos num pandemónio decalcado por uma mente preversa. Prevêm-se colisões, distorções tão fáceis como premeditadas, que essas são melhor controladas. Só essas parecem dar segurança. Só essas parecem restar. Rastejantes e moles, fartas de tanto rebuliço.

domingo, 10 de agosto de 2008

tristes cafés de um mês esquecido


De uma conversa que não nos interessa, a palavras soltas por cima de um balcão perdidas entre os trocos de um dia bem bebido, extinguem-se filosofias e estéticas incomuns entre dois professantes de conhecimentos redescritos entre copos altos de conhecimento superior...

sábado, 9 de agosto de 2008

pequenos vícios


Curtos momentos de desconfiança total, uma frustrante sensação comprovada por outros. Que em breve nos tornaremos redundantes, que deixaremos de aprender. Que deixaremos de construir o que até agora nos mostrámos tão capazes de conseguir.
Ruminar... nunca mais a mesma relva?
Sim, espero bem que sim.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O Lobo Faminto II


Mudando a atenção para a história da colega do lado...
a partir do workshop do Richard Camara

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

caminhos cavados


Ser ou não deixar ser, eis a questão... talvez. Sempre recortadas entrelinhas de uma composição comum a um povo, esse mesmo ouviodo, insaciável, indiscreto que tudo quer saber, que trudo indaga, para não mais saber aquilo que o molesta do outro lado da página. Que não está branca, aspiram a uma história minuciosamente controlada por vários olhos, diferentes mãos, escrupulosas para não deixar fugir aquela menina de vermelho, que não cresce nem ganha justa palavra. Que, no entanto saíu de casa para encontrar o perigo uma e outra e outra vez. Por mais que se folheie a história, a mesma premissa, alternando por diferente justiça, o mesmo hábito, o mesmo hálito arreganhado ao fundo do parágrafo conhecido. Ser ou deixar de ser. Sempre a mesma. Segura o meu cesto agora por um bocadinho...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

olhares arreganhados


Circunstâncias aflitas, de patrimónios perdidos ou ocultos. Sugestões omissas entre sibilares cantados por lábiod escondidos. Linhas definhadoras de um percurso que se apanha, se recolhe e encaracola num bolso amarfanhado por baixo do resto da roupa num cesto escuro e imparcial. Esperando a corda, que na madrugada seguinte lhe trará a ciência ao olhar. Esperar a alvorada de um dia sem fios, uma ligação sem redes promíscuas entre paredes que perdem a solidez e a palavra abafada, diluída em anos de secretismo, de censura, de vivências esquecidas em argamassas secas por fora.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O Lobo Faminto


"Passando um lobo esfaimado por uma casa, ouviu chorar dentro um menino, e lhe dizia a mãe: -Se choras, hei-de-te dar ao lobo. Este, parecendo-lhe ser aquilo assim, esperou um pouco; porém vendo que, sossegando-se o menino, a mãe, fazendo-lhe carícias, lhe dizia: Se vier o lobo havemos de matá-lo, uivando partiu dali, dizendo: Esta diz uma cousa, e fas outra! Há muitos cobiçosos, que cegos da sua utilidade, esperam cousas impossíveis"

de Marques Soares, "Divertimento de Estudiosos, t.II, p62
a partir do workshop do Richard Camara
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Mariana Perry