
são memórias que projectamos nas agendas em dias trocados
Sempre, deste lado da mesa, nunca, desse. Perguntas nos olhos, mãos na testa, em suspiro, preso nos lábios com a pergunta que nunca se pode colocar. Quem está em avaliação premente, quem sugere uma solução convenientemente estudada, quem se lembra do que viu em passos de outrora e em caminhos esquecidos de tão contornados? Sempre assim foi, nunca mudaria. Não agora, pelos menos, não agora e sobretudo não de repente. Nos desertos macios e suaves, descritos e enumerados colocaremos o pé no socalco reconhecido. O que nos impede sempre de nunca sair desse trilho? O que nos relembra que aqueles olhares são de facto os mesmos que, pertencentes a outros olhos, marcaram os nossos nessa distorção que tanto nos marcou o ombro. Pendura sempre em negação absoluta.
Seduções em cuidado precário. O preçário para um trejeito abolido mantém-se amarrotado no fundo do bolso de um casaco pendurado. Um cachecol que abafa a voz, prontifica-se a uso indiscreto, um lenço de conturbação aplicada espreita pelo colarinho de uma camisa decotada. Sem vistas nem malabarismos, sem saltos nem tropelias. Um terrível sussurro das costas de uma cadeira de família empolgada, uma tensão de estaticismo impresso no alfinete de lapela rasgada. Sorrisos escondidos, enlaces de pernas em meias brancas. Uma paz sibiliante de confissões temerosas, de interjeições particulares, de dedilhações contorcidas e enrugadas. Se levantares o queixo percebo melhor o que dizes, pode se isso mesmo que tento evitar.
Mãos azuis. Exangues de gestos que perderam pelo caminho. Contava-te a história do lenço de carpideira que levantou vôo na leveza de tanto uso. Contava-te a serenidade encontrada na testa de um infante que ainda não perdera a vontade de dormir. Contava-te as rugas que ganhaste nos cantos dos olhos de tanto esperares que chegasse. Contava-te tudo. As vezes que corro mais depressa por trazer cores nos pés. Os dias que engulo sapos, bestas e lagartos mesmo sabendo que lhes faço alergia. Os cafés de promessas de estudos que nunca conseguirão passar a primeira página sob a ponta destes dedos. O cabelo que vais perder nas mãos desse temido tempo. O terreno que se intrometerá na existência divina. Os botões do teu casaco de fecho. O colarinho das minhas perguntas.
Os telhados, de rosto adoçado por esse sol divino de uma estação que se deixou ficar para trás, tentada a fezer-se desapercebida, com a certeza de quem veste umas sandálias em pleno Outono. Seguros de si, correm a cidade pé ante pá, não fossem os inquilinos dar pelo seu ribombar, entre o cheiro a fritos e gritos frios colinas abaixo. São escurecidos pela malícia de um sorriso as convida a bailar e depois se esconde antes da música acabar, sem oferecer um copo de vinho que seja. Sorvem caldo em paus de canela demolhados, fazem longos discursos pela taquicardia lunar. São poucos os que os ouvem, menos os que os vêem saltar, que se escondem e baixam sobre paredes pintadas menos sortidas. São desplicentes pelo vento de levante, que traz a sombra pálida de uma careta que nunca os conseguiu fazer sorrir. Estão demasiado bêbados para a ver. Nunca voltam ao mesmo leito, nunca sobrevoam a mesma casa. trazem consigo as novas mágoas de uma brincadeira demasiado ingénua. Saltam memórias de viagens antigas, sobre calhas que não ganhavam pó. Sobre relva que não se quebrava sob o seu passo, de águas que nunca foram mais limpas. Saltam corridas, pelas colinas, pelas vielas mais enganadoras, pelos becos e pelas avenidas. Saltam postes de iluminação e sebes desencantadas, saltam canteiros sem voz e nem mesmo a calçada lhes prende os pés. São loucos, desenfreados e incontornáveis. E sabem-no demasiado bem.

Na palma de uma mão deixei toda a minha confiança. Deixei que inspecionassem a minha ternura. Abandonei a toda a minha calma no rolar de um olhar. Pousei devagar as minhas intenções na borda de uns dedos entrelaçados. Coloquei toda a minha cautela no roçar de uma pestana. Deixei que me atassem os pés com fios desse cabelo. Deixei que me amordaçassem a respiração no rastejar de um queixo. Deixei que me deixassem caír com toda a força que nunca imaginei ter e partisse o nariz em grandes bocados. Deixei de me reconhecer ao espelho. Deixei de olhar apenas em frente. Deixei de usar essa pele antes que ma rasgassem. Porque deixei que me deixassem entregue a mais ninguém.
São incontornáveis os aspectos precisos referentes a um conceito plenamente distinto de um raciocínio caracteristicamente complexo e interventivo, que dependa de uma série de comparações delicadas e metamorfoses incisivas, sob a clara intencionalidade de confirmar uma acepção cognitivamente ambígua conquanto irrepreensível.
Do alto de umas solas de borracha, vê-se o bairro de uma nova dimensão. Esta gente, que não nos viu crescer, agora assume que conhece perfeitamente essa pessoa que as cumprimenta com uma palavra aprendida e bem colocada. São correctas a postura e o tom de voz, estão minimamente alinhados os cabelos num penteado da década corrente. Evitam-se as desgraças elaboradamente esquecidas de caninos alheios, perdem-se horas a escutar as de corpos gastos e surpreendentemente rendidos à gravidade de uma vidinha de banco de cozinha e agulhas de crochet à sombra de uma cortininha de meia-haste. De dentro de paredes de cabedal, soltam-se lampejos e assobios pouco abafados dirigidos a contornos recentemente com novo bambolear. São dementes os retorcidos nas mangas, nervosos os dedos que seguram a alsa da mala. Recorrente o pavimento que se desenrola debaixo de umas solas de borracha que vêem o bairro de uma nova dimensão.
De dentro de caixas, de entre o pó, sob a costura de papel e cola de memórias descalças, dedilham-se pequenos números expelidos para os cantos de sua gigantesca propriedade. Estão estarrecidos, os pobres, de terem perdido seu lar por direito. Há muito que não vêem seus vizinhos, seus irmão de armas. Nem o movimento de pulso lhe safa a vista, que de vez a vez alguém lhes faz a folha.
Soltam-se as trevas, lançam-se os trevos ao chão molhado. De festa e papelinhos de cores se fazem as vozes, de gritos os rugidos de um bêbado bamboleando na estrada brilhante. São doces os bafos trilhando caminhos passados, atravessados de linhas traçadas no chão numa côr que nem a noite apaga, nem a festa ofusca, nem os passos tapam. São doidos os que se escondem atrás de estores cerrados, não sabem eles que a festa chega a todo o lado e se esgueira em todos os cantos? Quantos mais melhor, ou assim se diz. Diz que sim! E diz que urra! E diz que vai chover! E diz a esse que esteja calado, passa-lhe a alegria, que a noite é uma criança demasiado sóbria.